Pesquisa com 245 empresas, validada pela Unicamp: o que os dados revelam sobre o risco psicossocial no Brasil
Dr. Marco Aurélio Bussacarini comenta os dados publicados pela Revista CIPA: pesquisa com 245 empresas validada pela Unicamp e o case do AventusCare com ROI de 5,8x e R$780 mil de economia em 12 meses.
Dr. Marco Aurélio Bussacarini · 26/05/2026 · 5 min de leitura

No mesmo dia em que a nova NR-1 entrou em vigor — 26 de maio de 2026 —, a Revista CIPA & Incêndio — uma das publicações de referência do setor de Segurança e Saúde do Trabalho no Brasil — publicou uma matéria especial sobre a governança corporativa na era da nova norma. Nela, dois dados da Aventus foram destacados: os resultados da nossa pesquisa aplicada em 245 empresas da Região Metropolitana de Campinas, validada por pesquisadores da Unicamp, e um estudo de caso da plataforma AventusCare que demonstra, em números concretos, o que acontece quando a gestão de riscos psicossociais é feita de forma estruturada.
Quero usar esse espaço para aprofundar esses dados — porque eles dizem coisas que o formato de uma reportagem não comporta em detalhes.
O que a pesquisa com 245 empresas revelou
A pesquisa foi realizada com metodologia validada internacionalmente e submetida à revisão de pesquisadores da Unicamp. O universo: 245 empresas de setores variados na Região Metropolitana de Campinas — serviços, comércio, transportes e indústria.
Entre todos os domínios de risco psicossocial avaliados, um se destacou com os piores resultados em todos os setores: clareza do cargo. Os índices de insatisfação variaram entre 65% e 79% dependendo do setor — o que significa que entre dois terços e quase quatro quintos dos trabalhadores avaliados relataram não ter clareza sobre o que se espera deles, quais são suas atribuições e como seu trabalho será avaliado.
Esse número importa por uma razão muito específica: a ambiguidade de papel é um dos preditores mais consistentes de estresse crônico, burnout e afastamento por transtornos mentais na literatura científica. Não é a carga de trabalho em si — é a incerteza sobre o que fazer com ela, para quem, com que critério e com que consequências.
O risco que mais adoece não é o mais óbvio
Na maioria das empresas que avaliamos, o primeiro diagnóstico aponta para sobrecarga ou pressão como problema central. A pesquisa mostra que o fator subjacente, em 65-79% dos casos, é a falta de clareza sobre atribuições, metas e critérios de avaliação. Resolver sobrecarga sem resolver clareza não resolve adoecimento.
Por que a metodologia importa — e o que o HSE-IT muda
A Revista CIPA destacou que a plataforma AventusCare utiliza o HSE-IT (Health and Safety Executive Indicator Tool) — um instrumento de 35 questões aplicado sob garantia de anonimato, validado internacionalmente e reconhecido como referência em avaliação de riscos psicossociais.
A escolha por uma ferramenta internacionalmente validada não é questão estética. Como afirmei na entrevista à Revista CIPA: "A avaliação psicossocial deixou de ser opcional. As fiscalizações já estão acontecendo e as empresas precisam demonstrar processos padronizados e auditáveis." Um questionário caseiro ou uma pesquisa de clima sem fundamentação metodológica não constitui evidência técnica em uma fiscalização ou em um processo trabalhista.
O AventusCare automatiza a aplicação, garante anonimato (o que aumenta significativamente a taxa de resposta honesta), identifica os domínios críticos por setor e nível hierárquico, e gera planos de ação auditáveis — com responsáveis, prazos e evidências de execução. É exatamente esse rastro documental que a NR-1 e a fiscalização passam a exigir.
O que acontece quando a gestão de riscos psicossociais é feita direito
O dado mais impactante da reportagem é o estudo de caso publicado: uma indústria com 500 colaboradores que implementou, ao longo de 12 meses, intervenções estruturadas na organização do trabalho a partir dos dados do AventusCare.
Os resultados após um ano:
- Absenteísmo: 5,2% → 3,5% (redução de 1,7 ponto percentual)
- Turnover: 18% → 13% (redução de 5 pontos percentuais)
- Afastamentos pelo INSS: 12 → 5 ocorrências (queda de 58%)
- Economia gerada: R$ 780 mil por ano
- ROI: 5,8 vezes o investimento
Esses números precisam ser lidos com cuidado — não como promessa, mas como referência de ordem de grandeza. O que eles demonstram é que a gestão de riscos psicossociais, quando feita com metodologia, continuidade e intervenções reais na organização do trabalho (não apenas ações pontuais de bem-estar), produz impacto mensurável em indicadores que o C-level acompanha diretamente: custo de turnover, absenteísmo, afastamentos pelo INSS.
A linguagem que sensibiliza a alta gestão
Na prática, o maior obstáculo para a implantação de programas de saúde mental no trabalho sempre foi a dificuldade de conectar o investimento a resultados financeiros tangíveis. O ROI de 5,8x é a resposta a esse obstáculo. Quando há dados estruturados, o diálogo com a alta gestão se torna estratégico e fundamentado — não uma pauta de bem-estar, mas uma decisão de negócio.
O momento que estamos vivendo
A NR-1 entrou em vigor hoje. Isso não significa que todas as empresas serão autuadas amanhã, mas significa que o ambiente de risco jurídico mudou de forma permanente. O estudo da Previdência Social é revelador: em 2025, foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a distúrbios mentais e comportamentais — um aumento de 15,66% em relação a 2024. O custo para as empresas, entre afastamentos, substituições e processos trabalhistas, já é mensurável antes mesmo da nova norma.
O que a NR-1 faz é formalizar uma responsabilidade que já existia na prática e adicionar o risco de autuação e de responsabilização civil para quem não demonstrar que agiu. O papel do RH — como apontei à Revista CIPA — torna-se central nesse movimento: é a área que conecta cultura, liderança e indicadores, e que pode transformar dados de saúde em argumentos de gestão.
Para as empresas que ainda não iniciaram o processo: o melhor momento era antes do 26 de maio. O segundo melhor momento é agora.